Falar sobre memórias de infância enquanto adulto é sempre algo que demanda um pouco de reflexão. Pois, enquanto crianças, nosso mundo é pequeno. Nosso entendimento é limitado. Então, acredito eu, temos uma tendência a construir nossas memórias dentro desse pequeno mundo. Porém, depois de adultos, onde já temos algum repertório de vida e uma visão diferente das coisas, ao revisitar essas memórias, acabamos por reavaliar esses acontecimentos, agora sem a ótica infantil. E é daí que surge a reflexão.
Se eu pudesse falar sobre minha infância, eu diria que ela foi boa, apesar de alguns contratempos. Eu consigo perceber quais traços de mim, enquanto adulta, foram formados nessa idade. Tanto as qualidades quanto os defeitos. Eu lembro de muitas coisas com carinho e nostalgia, enquanto outras eu lembro com amargor.
Daí então, eu queria refletir e comentar sobre as coisas da infância que sei que permaneceram comigo até hoje.
Imaginação e inventividade: Eu sempre fui uma criança/adolescente que gostava de criar histórias, situações e personagens. Desde pequena eu gosto de escrever e transformar sentimentos em narrativas. E até hoje isso permanece, quando me pego imaginando personagens e histórias. Escrever narrativas também é um hobbie que conservo até hoje.
Dificuldade de lidar com ciclos longos: Como passei a maior parte da minha infância/adolescência acompanhando o emprego do meu pai, me mudei muito de cidade e casa. Consequentemente os meus ciclos em uma mesma escola ou em um mesmo local foram muito curtos, de um a dois anos. Antigamente, não tínhamos tecnologia igual hoje para se manter a comunicação, então não tenho amizades de longa data. Atualmente, para mim, é difícil a ideia de um ciclo longo. Um emprego que se mantém por mais de dois anos, uma casa que você vive por cinco anos. Um ciclo longo sempre me causa inquietação, uma sensação que estou parada no tempo. Porém, de uns tempos para cá, eu venho tentado trabalhar melhor sobre isso.
Desafiadora: Meu pai sempre dizia que eu era "desafiadora". Eu sempre retrucava e debatia e discutia. E até hoje sou assim. Pra mim é difícil me adaptar com coisas consolidadas "porque sim". Eu preciso ver sentido em algo que estou fazendo, se não me parece perda de tempo. E normalmente, isso leva a discussões e readaptações. Isso não me torna insuscetível a opiniões alheias, mas eu gosto sempre de entender o porquê da opinião existir e avaliar se é algo que me convém absorver.
Curiosidade: Sempre fui muito curiosa. Eu gosto de informações aleatórias sobre assuntos variados, gosto de entender e aprender como as coisas funcionam, mesmo que seja algo nada a ver com a minha vida, gosto de ouvir o que as pessoas tem a dizer. Gosto de me questionar perguntas que não tem resposta definida, gosto de imaginar o que se passa dentro da cabeça/universo de alguém. E isso é algo que é preservado desde criança. Na infância, isso tende a se tornar uma inconveniência para os pais, principalmente quando envolve perguntas indiscretas. Hoje em dia, dependendo do assunto, eu preciso manter a discrição. Mas a curiosidade permanece.
Talvez tenham mais coisas que não pude citar aqui, mas posso dizer que definitivamente são várias. E aí é onde eu vou falar sobre o primeiro desafio do tema:
Quando é que deixamos de ser crianças?
Me questionar sobre como responderia esse desafio, enquanto me preparava para escrever este post, que me levou a essa reflexão das coisas que eu escrevi aqui sobre minha infância. Porque me questionei, quando foi que eu deixei de ser criança? Foi quando comecei a trabalhar? Quando comecei a ter autonomia e responsabilidades?
E a conclusão que cheguei que talvez a vida seja uma eterna árvore de habilidades, como um jogo. Que você começa de baixo, e depois vai crescendo e ramificando em direções diferentes, porém a raiz está sempre lá, na base. Não importa pra quão longe seus galhos se espalhem, a raiz permanece.
E talvez seja isso. Talvez eu nunca tenha deixado de ser criança. Eu talvez seja praticamente a mesma Niara, porém com mais "habilidades". Elas existem simultaneamente, uma sendo continuação de outra. Eu adulta tenho responsabilidades diferentes, em níveis diferentes, e a medida que vou desbloqueando "habilidades", vou adquirindo novas missões e responsabilidades. Algumas coisas da base já não fazem mais sentido no nível que estou. Mas a fundação, essa sempre será a mesma.
Quanto ao segundo desafio:
A minha brincadeira favorita enquanto criança, era imaginar. Sentada no carro olhando pela janela, em casa, andando na rua. Eu sempre gostava de imaginar coisas acontecendo e histórias. Me perdia muito nas minhas narrativas, que me envolviam ou não.
A proposta seria, nunca perder isso. Se permitir imaginar coisas, situações, acontecimentos. Coisas divertidas ou trágicas, histórias sobre você e sobre os outros. Se permitir imaginar, para não se perder na frieza da realidade.
Créditos da Imagem: ❤

Nenhum comentário:
Postar um comentário